SER MULHER - Salete Bitencourt



Vivemos em uma sociedade em que parece que nascer mulher já é um problema. Somos fruto do ventre de uma estrutura patriarcal e machista, que desde a mais tenra idade da menina, já há um trabalho de domesticação dessa dócil criatura para reforçar e produzir os interesses de uma classe dominante.

Nascer mulher já vem com defeito de fabricação. Se por ventura trocarmos as peças que estão desgastadas e carcomidas pelo machismo doentio e exacerbado, construídos ao longo dos séculos, somos tachadas de feministas, putistas, frígidas e inferiores. A tarefa e luta da mulher pela sua emancipação dignidade e respeito não é um processo lento e fácil. As amarras construídas culturalmente por um sistema perverso  e destruidor da autoestima feminina é um fenômeno de exploração/dominação desenvolvido implacavelmente em todo curso da história.

Assumirmos com dignidade e respeito nossa condição de mulher é como tomarmos partido com enfrentamento e postura no nível político, econômico e social. Derrubando com muito cuidado e sutileza as dores internas que nos foram impostas ao longo do processo histórico.

Acredito que quando a mulher descobrir a sua fenomenal força, grandes saltos qualitativos e quantitativo serão dados. Novos sonhos e novas alegrias serão doados e compartilhados ao mundo. Ser mulher é um fenômeno assustador e único na história da humanidade. Dói ser mulher, mas o que dói mesmo é o que fizeram e fazem com a sua condição, no que diz respeito a denegrir e destruir os seus mais belos sonhos e desejos de se fazer/construir mulher.

Que tenhamos dores de parto. Mas precisamos urgentemente parir um novo ser, um novo homem, uma nova vida... Que respeite as diferenças, as cores, as raças, as crenças. Um novo homem que não se sinta superior a nada nem a ninguém. Não um homem perfeito, mas lindamente digno.

Não queremos a ascensão da mulher e a queda do homem. Homens e mulheres são dois seres que se precisam. Os dois nasceram para brilhar. Mas não nos é devido ofuscar a beleza de um em detrimento do outro. Exercer a supremacia é imputar a exploração/dominação/submissão. Despertemos conjuntamente para uma nova ordem amorosa entre machos e fêmeas. E o universo agradecerá.

Acreditar em uma nova relação entre os diferentes é acreditar na vida. Sim. Simplesmente porque sou mulher. Simplesmente mulher me tornei!

Bitencourt, Maria Salete Costa / Confissões de uma andarilha - FS, 2003.

2 comentários:

  1. ÓTIMO texto, ahh e feliz dia das mulheres ♥
    http://geekcorderosa.blogspot.com.br/2015/03/decoracao-1-artigos-geeks.html

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